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Opinião

05/08/2019

As boas práticas agrícolas e as plantas daninhas

Dr. Mauro Antônio Rizzardi é professor da Universidade de Passo Fundo, RS

Ao observarmos áreas cultivadas com soja tanto no sul quanto centro-oeste do Brasil nos deparamos com áreas com altíssima infestação de plantas daninhas, ao lado de outras com presença reduzida. Num primeiro momento esta observação é associada ao uso incorreto de herbicidas. Mas, basta uma rápida conversa com estes produtores para se verificar que as diferenças estão associadas a outros fatores que não unicamente ligados ao herbicida.

O herbicida é visto, por muitos, como a única estratégia a ser adotada para o controle de plantas daninhas. Porém, a adoção do controle químico não deve ser vista como solução única, e sim como importante ferramenta a ser adotada no controle, mas sempre associado a outras práticas culturais que favoreçam o desenvolvimento e potencial produtivo das culturas.

Culturas implantadas com população de plantas, adubação, espaçamento e cultivares adequadas a determinada condição ambiental tendem a apresentar drásticas reduções na interferência e no período em que deve ser mantida livre da presença das plantas daninhas, a fim de que sua produção não seja alterada significativamente. 

Os efeitos negativos das plantas daninhas sobre o rendimento da cultura usualmente decrescem com o decorrer do intervalo de tempo entre emergência da cultura e das plantas daninhas. As plantas daninhas que emergirem mais tarde do que as culturas, provavelmente, terão menor impacto sobre o rendimento, pois grande parte da interferência ocorrerá após a determinação dos componentes do rendimento da cultura.

A época de emergência da cultura influencia a intensidade com que ela suprime as plantas daninhas. Assim, uma boa prática a ser adotada é a semeadura da cultura na ausência de plantas daninhas na área, ou seja, “semear no limpo”. Esta prática possibilitará o estabelecimento da cultura na ausência de plantas daninhas e, como dito anteriormente espécies que emergem mais cedo obtém vantagem sobre aquelas que emergem mais tarde e tornam-se melhor competidoras por recursos do ambiente. 

A modificação no arranjo de plantas da cultura possibilita o maior e mais rápido fechamento do solo no espaçamento mais estreito e na densidade mais elevada, o que aumenta a competição da cultura e favorece a supressão das plantas daninhas. Por exemplo, em milho, o arranjo mais equidistante das plantas, com redução do espaçamento entre fileiras, diminui o potencial de crescimento das plantas daninhas por aumentar a quantidade de luz que é interceptada pelo dossel da cultura. Porém, qualquer modificação no arranjo de plantas deve respeitar as características da cultura, do ambiente e da cultivar.

A maior interceptação de luz, associada ao rápido fechamento do solo, permite a melhoria da eficiência do controle das plantas daninhas com herbicidas aplicados em pré-emergência. Ou seja, os herbicidas de pré-emergência podem atuar no manejo integrado no início do ciclo da cultura, que será complementado pelo rápido e intenso fechamento do dossel proporcionado pela cultura, quando em altas populações ou por reduções do seu espaçamento. 

Outra prática agrícola importante no manejo de plantas daninhas é adoção de um adequado sistema de rotação de culturas, que inclua culturas de interesse econômico com culturas de cobertura e proteção do solo. A rotação de culturas quebra a especificidade de uma população de plantas daninhas a uma determinada cultura, prevenindo o surgimento de altas populações de certas espécies de plantas daninhas mais adaptadas a certa cultura. Além disso, a rotação de culturas propicia alternância de métodos e herbicidas usados no controle das plantas daninhas.

De outro modo, a crescente utilização do sistema de semeadura direta está relacionada à maior dificuldade de controle de plantas daninhas e ao incremento da necessidade de herbicidas em algumas culturas. A impossibilidade de revolvimento do solo na semeadura direta implica a não eliminação das plantas daninhas por meio da operação de preparo do solo para a semeadura. Por outro lado, a manutenção da cobertura vegetal sobre o solo no sistema de semeadura direta restringe a emergência de plantas daninhas, em comparação com o solo descoberto. Com a utilização de culturas de cobertura, procura-se aproveitar tanto os efeitos físicos quanto os alelopáticos dessas plantas, reduzindo a infestação de plantas daninhas. Exemplo desse efeito pode ser observado quando do cultivo de milho consorciado com Urochloa ruziziensis

A adoção do sistema de semeadura direta possibilita maior flexibilidade na época de semeadura das culturas, permitindo que as mesmas sejam estabelecidas desde logo até vários dias após o manejo da cobertura vegetal antecessora. O aumento nos resíduos da cobertura vegetal atrasa e reduz a emergência das plantas daninhas, ampliando o período disponível para remoção da planta daninha. 

Em suma, aqueles produtores que manejaram suas lavouras dentro dos preceitos fundamentais das boas práticas agrícolas são aqueles com os menores problemas com plantas daninhas. Para estes, as plantas daninhas que eventualmente sobrarem na área, pelo não controle com herbicidas, encontrarão as culturas com melhor desenvolvimento e capazes de competir com estas plantas. Esta maior capacidade competitiva da cultura resultará em maior produtividade. 

 

Mauro Antônio Rizzardi é Engenheiro Agrônomo pela Universidade de Passo Fundo , mestre e doutor em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é professor titular da Universidade de Passo Fundo. 

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